Racismo no futebol volta à tona

postado por Cleidiana Ramos @ 12:54 PM
25 de junho de 2009
O jogador argentino Maxi López é acusado de ofensa racista contra jogador do Cruzeiro. Foto: Pedro Vilela|AE

O jogador argentino Maxi López é acusado de ofensa racista contra jogador do Cruzeiro. Foto: Pedro Vilela|AE

Vejam só as ironias do futebol e não estou me referindo aqui ao supreendente resultado de 2X0 dos EUA em cima da badalada equipe espanhola:  na tarde de ontem, durante a partida da Copa das Confederações o que mais apareciam nas imagens eram as placas com a mensagem da campanha da Fifa contra o racismo.

Pois à noite um caso de ofensa racial fez acabar em confusão o jogo entre os times brasileiros Cruzeiro e Grêmio pela Copa Libertadores da América.   

O jogador Elicarlos do Cruzeiro, que é negro, contou, durante entrevista ao ser substituído, que foi chamado de ‘macaco” pelo jogador argentino do Grêmio, Maxi López.

“Disputei uma bola com Maxi, ele não gostou, virou para mim e disse: “macaco”. O Wagner também ouviu, ficou p…, e foi para cima dele. Na hora, não acreditei naquilo, fiquei sem reação”.

Elicarlos disse mais:

“Foi algo muito duro, difícil de aceitar. Fiz a coisa certa, fui à polícia denunciá-lo. Nem sei se ele vai ser punido ou suspenso. Não sei se posso perdoá-lo”.

Só quem já foi vítima de racismo sabe o quanto dói. É exatamente o que Elicarlos definiu: primeiro a gente não acredita no que está ouvindo,  depois a supresa vai dando lugar a uma indignação e sentimento de prostração. Mas Elicarlos teve o sangue frio necessário para fazer a coisa certa: deu queixa numa delegacia que fica dentro do estádio Mineirão, onde aconteceu o jogo.

A polícia foi buscar o argentino acusado para depor, mas como ele já estava no ônibus da delegação do Grêmio uma confusão se formou  quando integrantes da comissão técnica do time gaúcho quiseram impedir a ação. No final todo mundo foi parar na delegacia. A polícia ouviu os dois jogadores e abriu inquérito. 

Na próxima semana os dois times voltam a se enfrentar em Porto Alegre, com mando de campo do Grêmio, o que é um anúncio de mais confusão.

O que me deixou impressionada é o desconforto da imprensa esportiva em tratar o assunto. Teve comentarista de televisão que chegou a usar o argumento de que ofensa é “normal” num jogo de futebol.

Não é a primeira vez que isso acontece no futebol brasileiro. O goleiro baiano Felipe, hoje do Coríntians, quando defendia o Vitória  denunciou o presidente do clube, Paulo Carneiro, por agredi-lo com ofensas racistas em 2005 após o clube ter sido rebaixado para a terceira divisão do campeonato brasileiro.

No mesmo ano, uma outra confusão, também na Libertadores, envolveu um jogador brasileiro e outro argentino: Grafite, então no São Paulo, disse ter sido chamado de “macaco” por Désabato jogador do Quilmes.

Grafite levou o caso para a polícia, mas há poucos dias li um depoimento seu para o blog de Cosme Rímoli dizendo que nem queria dar queixa e o fez por pressão da direção do São Paulo e do delegado. Justificou sua resistência com o argumento de que sabia que não ia dar em nada e que acontece o tempo todo nos campos de futebol.

No ano passado foi a vez do jogador Carlos Alberto, então no Botafogo, reclamar de agressão racista por parte da torcida do Coritiba. São vários outros casos envolvendo sempre jogadores negros como vítimas, mas tudo acaba ficando no esquecimento até que acontece de novo. Claro que tentar condenar alguém no Brasil por crime de racismo não é fácil.

Além do famoso preconceito do brasileiro em ter preconceito, como disse Florestan Fernandes, a crença na democracia racial  por aqui impera.  Quem fala algo que desmente isto é criador de caso, complexado e por aí vai. E, no futebol, um esporte que rende milhões e que cria no jogador uma extrema necessidade de estar bem com torcida, opnião pública e mídia, o mais comum é baixar as armas e deixar pra lá.  

Sem falar que racismo  é inafiançavel, ou seja, o agressor tem que ficar preso. Aí, no máximo, os delegados fazem a ocorrência de “injúria”.

Outra dificuldade é o testemunho. Elicarlos, por exemplo, disse que seu colega de time, Wagner, ouviu tudo. Resta saber se o colega vai testemunhar e se o Cruzeiro vai apoiar seu jogador, afinal na próxima semana o time vai a Porto Alegre, casa do Grêmio, para a partida de volta e deve querer amenizar o clima de guerra que já se formou.

Espanta também o silêncio da  CBF, da organização da Libertadores e dos clubes sobre o assunto, quando a Fifa manda até que capitães de seleções nacionais leiam um comunicado contra o racismo antes de partidas tão importantes como as da Copa das Confederações. A Fifa tem intensificado sua campanha contra o racismo, principalmente, porque a África do Sul, onde imperou o vergonhoso apertheid, vai sediar a Copa do Mundo no ano que vem.   

A falta de punição mais rigorosa só abre espaço para que o crime continue.

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2 Respostas to “Racismo no futebol volta à tona”

  1. Clésio Moreira  Says:

    boa noticia esta

  2. rogerio  Says:

    O ultimo caso de racismo (que a cretina legislação penal chama de injúria preconceituosa) nos gramados brasileiros, nos revela uma impressionante verdade: a naturalização do racismo no Brasil.
    Ao final do depoimento de seu jogador, o técnico do Grêmio, Paulo Autuori, faz sua análise do caso, demonstrando de forma tranqüila, que no Brasil, falar em punição ao racismo é na verdade, palavras dele, “uma hipocrisia”.
    Vejamos sua fala: “nos já vimos esse filme, nos já vimos esse filme em São Paulo”, a referência do treinador, é ao caso envolvendo o jogador Grafite, então jogador do São Paulo, que fora chamado de MACACO por um atleta argentino. Prossegue Autuori: “já vimos esse filme e não deu em nada, acabou tudo como acaba no Brasil”, essa meus amigos, é a crença no imaginário brasileiro, de que a prática do racismo não dá em nada.
    Para além da convicção de que o racismo “não dá em nada”, o treinador gremista ainda emenda: “o Brasil precisa ser mais sério, nos temos coisas mais sérias para nos preocupar”; só na cabeça de um perfeito pacóvio é que, a prática de racismo contra um grupo que constitui maioria esmagadora (não que não seja deplorável quando são minorias) da população, deva ser fA coisa é feia, mas ainda não acabou, o homem é um racista convicto, quando perguntado por um profissional da imprensa se não considerava grava uma acusação de racismo, o homem não titubeou: “todo dia existe coisa de racismo por parte de gente com responsabilidade, importante…”; se a “gente importante” pode, então todos podem, essa é a lógica da coisa. Finalmente conclui: “há de se acabar com essa hipocrisia”.
    De que hipocrisia fala o técnico racista, vejam vocês que inversão ocorre em nossa sociedade: querer punir alguém pela prática de racismo, é hipocrisia; o normal, o natural, é que nem racismo isso seja, afinal, pensam esses canalhas, “esses negros são tudo isso mesmo, e podemos falar isso”, acham que podem falar o que bem entendem, afinal, ainda temos uma legislação penal protetora do racismo, e todos sabemos disso. O Autuori apenas é aquele que fala, “todos” pensam, mas ele fala.
    Eis nossa luta meus amigos: desnaturalizar o que não é natural.

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