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Salve, dona Clementina!

A voz belíssima de Clementina de Jesus é inconfundível. Foto: Walter Firmo | Divulgação

O destaque musical de hoje é a belíssima voz de sua majestade Clementina de Jesus (1901-1987). É sempre um prazer relembrar o seu timbre inconfundível.  Estou também atendendo um pedido da minha colega jornalista, Meire Oliveira.  Portanto, curtam  o vídeo aí abaixo.

Sábado e domingo tem festa de Os Negões

O Bloco Os Negões realiza festival cultural neste fim de semana. Foto: Thiago Teixeira | AG. A TARDE

O bloco afro Os Negões realiza nos próximos sábado e domingo o seu Festival de Cultura, Música e Artes. A festa será no Largo do Monte Belém, Avenida Vasco da Gama.

No sábado a partir das 20 horas acontece a escolha do Negro Lindo 2010 e a apresentação da Personalidade Negra 2010, que é a ex-reitora da Uneb, Ivete Sacramento.

Em seguida terá o lançamento do CD Batuque Black dos Negões e a apresentação da Banda de Reggae Macaxeira Roots.

No domingo a partir das 17 horas haverá a escolha da canção para o Carnaval 2010 dos Negões, a apresentação da Banda Mirim e da banda Tambores da Liberdade. A cultura do povo Zulus é o tema do bloco para a folia.

Ilê Aiyê recebe Vanessa da Matta

Vanessa da Matta é a convidada do último ensaio do Ilê Aiyê. Foto: TV Globo | Frederico Rozario

Amanhã tem o último ensaio do Ilê Aiyê com a participação da cantora Vanessa da Matta. A festa terá também a participação do grupo Pretos Sábios e da Band´Aiyê.

O ensaio começa às 22 horas na Senzala do Barro Preto (Rua do Curuzu, Liberdade) e logo após acontece o tradicional arrastão pelas ruas da Liberade.

O ingresso custa R$ 15 (pista) e R$ 30 (camarote). Outras informações por meio do telefone 2103-3400.

Historinhas Afro-Brasileiras 2

Está publicada abaixo mais uma das histórias vencedoras da I Promoção Cultural do Mundo Afro. A narrativa é assinada por Maria Auxiliadora Andrade Pereira.

Cada uma das três vencedoras recebeu um exemplar do livro “Uma Historinha Africana”, de autoria do professor Jaime Sodré com ilustrações de João Victor Dourado.

Uma história de caboclo

Maria Auxiliadora Andrade Pereira

Durante muito tempo ouvíamos falar que o Caboclo não fazia parte dos rituais da religião africana, pois todas as atividades realizadas nos terreiros eram dirigidas aos Orixás.

Contudo, na casa de dona Maria de Lourdes, filha de Oxum, a história é diferente. Dotada de um senso humanístico, mulher lutadora, mãe de seis filhos, essa nobre senhora residia à época no bairro do Garcia.

Certo dia, ela recebeu a ilustre visita do Pai Caboclo Tupinambá. A partir dessa data o Caboclo ensinou a toda a gente que o procurava o amor e a fé. Ensinou também a força das folhas, das matas, e o respeito aos mais velhos.

Hoje tem uma legião de filhos, recebidos pelo amor, não possui riquezas, mas o seu maior tesouro é o amor que dedica aos outros. A todo o momento ela se questiona: que missão é essa que recebi? E conclui com toda experiência e sabedoria que Deus lhe deu: Deus fez seu mundo certo!

Atualmente tem 80 anos, filhos criados, netos no caminho, e o seu protetor continua ali, presente.

Afro Imagem: Odoyá!

Iemanjá ganhou uma festa digna da devoção que conquistou em Salvador. O presente deste ano foi colocado em uma escultura que a representa na cor negra. O clique do repórter fotográfico Lunaé Parracho para o jornal A TARDE mostra o presente que os pescadores da colônia de pesca Z1, localizada no Rio Vermelho, ofereceram para a rainha do mar. Ao lado da escultura está a ialorixá Aíce Santos que cuida da obrigação religiosa da festa.

Festa para a rainha do mar

Dia de saudações para Iemanjá. Foto: Iracema Chequer | AG. A TARDE

Amanhã, todos os caminhos na capital da Bahia levam até Iemanjá, chamada de “a mãe cujos filhos são peixes” e também conhecida como aquela que fez brotar dos seus seios generosos as outras divindades.

Iemanjá costuma sempre ser muito festejada por seus devotos e filhos. É saudada como generosa e protetora, características próprias da maternidade que é uma das suas referências mais conhecidas.

Curioso que é a única das divindades das religiões de matrizes africanas que ganhou uma festa própria sem nenhum tipo de associação com santos católicos.

A festa nasceu de uma devoção dos pescadores da colônia de pesca Z-1, localizada no Rio Vermelho e resiste ano após anos. Se o primeiro presente foi levado numa caixa de sapato, o de agora segue em um barco, acompanhado por uma procissão de outras embarcações.

O agradecimento e pedidos de um grupo de pescadoes, portanto, acabou se transformando em apelos coletivos. E Iemanjá parece ouvir e atender, afinal, ano após anos, são mais e mais balaios para receber os presentes dos outros devotos que enfrentam filas quilômetricas para colocar seu agrado desde as primeiras horas da manhã.

E a festa não começa ali. No ínicio da madrugada, a zelosa Mãe Aíce, que orienta todo o ritual religioso, vai até o Dique do Tororó levar a oferta de Oxum, senhora das águas doces, que não pode e realmente não fica esquecida.

O ritual às margens do Dique é tranquilo, emocionante e completamente silencioso. O por quê? Como várias coisas em candomblé, a resposta é para quem está autorizado e precisa escutá-la. Aos demais fica a lição que se observa e entende aquilo que está ao seu alcance.

Após o agrado a Oxum é hora de levar a oferenda principal para o Rio Vermelho, que fica guardada na chamada Casa do Peso até o meio da tarde quando parte até o local onde  deve ser depositado como agradecimento e prece para que o ano seja farto. E os pescadores, ano após ano, mostram que estão satisfeitos com a sua rainha e a proteção que ela oferece a quem vive parte significativa da vida em seus domínios.

Missão religiosa cumprida, é hora de aproveitar as várias festividades no entorno da praia que não tem o nome específico, mas é conhecida como “aquela do presente de Iemanjá”. As feijoadas são as concentrações mais procuradas. Tem desde as oferecidas na simplicidade das barraquinhas até as servidas nos hotéis luxuosos do Rio Vermelho, sem falar nas chamadas “festas de camisa”, aquelas em que precisa adquirir este tipo de vestimenta para participar.

Com sua leveza e zelando pelo equilíbrio, afinal é a protetora da cabeça, Iemanjá do povo ketu, Mamento Dadá, Dandalunda ou Kayala, divindades com características semelhantes nas nações da família bantu,  ganhou na Bahia o domínio das águas salgadas. 

Portanto, como majestade que é,  recebe honrarias especiais dos seus súditos e filhos. Axé!  

Edital financia projetos culturais afro-brasileiros

Projeto finacia projetos artísticos que tenham a cultura afro como inspiração, como é o caso do Bando de Teatro Olodum. Foto: Márcio Lima

Projeto finacia projetos artísticos que tenham a cultura afro como inspiração, a exemplo do Bando de Teatro Olodum. Foto: Márcio Lima| Divulgação

Uma boa notícia para os produtores das mais diversas expressões culturais com inspiração na cultura afro.

Até o dia 5 de março estão abertas as inscrições para o 1º Prêmio Nacional de Epxressões Culturais Afro-Brasileiras. Podem participar artistas e grupos cultuais. O prêmio vai distribuir R$ 1,1 milhão divididos entre os 20 vencedores de cinco regiões do Brasil.

A iniciativa é do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves (Cadon), em parceria com a Fundação Cultural Palmares e o patrocínio da Petrobras.

Segundo a presidente do Cadon, Ruth Pinheiro, a ideia do prêmio surgiu depois do II Fórum Nacional de Perfomance Negra realizado em Salvador. Uma das discussões do encontro foi a falta de editais para compensar este tipo de iniciativa cultural.

Para obter mais  informações sobre prêmio é só clicar aqui.  

Historinhas afro-brasileiras

Está publicada aí abaixo a primeira das três histórias vencedoras da 1ª Promoção Cultural do Mundo Afro. A história conta a criação do homem, segundo a versão de povos africanos e foi enviada por Iele Portugal.

A origem do homem na versão africana

Iele Ferreira Portugal

-Vovó de onde mesmo que veio o homem?

– Senta aqui que vou te contar: Quando era bem pequenininha, mais ou menos da sua idade, minha avó, que era descendente da gente da África, da região chamada Daomé, me contou uma história. Vou contar a você o que eu lembro.

– Vovó, antes de a senhora me contar a história, explique o que é descendente.

– É aquele que vem de algum outro lugar.

– Agora a senhora pode continuar a história.

– Há muito tempo, os orixás viviam aqui na terra. Não existia o homem. Até que, um dia, Olorum,o dono do céu, resolveu que criaria o homem para fazer companhia aos orixás. Olorum tentou criar o homem de ar, de fogo, de água, de pedra e de madeira, mas em nenhum caso deu certo.

– Por que não deu certo, vovó?

– Porque os homens de ar e de água não tinham forma, o homem de fogo consumia-se, e os homens de pedra e de madeira não se mexiam.

– E então, o que Olorum fez?

– Ele não fez nada. Nanã foi quem fez. Vendo que todas as alternativas tinham dado errado, essa orixá se ofereceu para criar o homem. Olorum permitiu. E Nanã foi fazer o homem. Pegou um punhado de barro e foi modelando o corpo: as pernas, os braços, a cabeça e tudo que temos hoje. Ela não esqueceu nada, fez tudo direitinho. Deu-nos tudo que precisamos,pernas para andar, mãos para pegar as coisas, olhos para ver… não se esqueceu de nada.

– É isso mesmo!

– Depois que homem foi feito, o que aconteceu?

– Os homens e os orixás viveram juntos e felizes, dividindo alegrias e aventuras na terra.

 

Museu Afro recolhe donativos para o Haiti

Insitituição baiana participa de campanha para auxílio às vítimas da tragédia no Haiti. Foto: EFE |David Fernández

Instituição baiana participa de campanha para auxílio às vítimas da tragédia no Haiti. Foto: EFE |David Fernández

Para quem quiser ajudar as vítimas do terremoto no Haiti, o Museu Afro-Brasileiro da Ufba, está recolhendo alimentos não perecíveis.

A campanha é coordenada pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Os alimentos arrecadados serão encaminhados para a Cruz Vermelha.

A entrega deve ser feita na portaria do museu que fica no prédio do Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus, Centro Histórico. O horário de funcionamento é das 9 às 18 horas, de segunda a sexta. Mais informações pelos telefones 3283 5540 / 5541

Balaio de Ideias: Sagrada Colina

A devoção das chamadas baianas é tema do artigo do professor Jaime Sodré. Foto:  Lúcio Távora | AG. A TARDE

A devoção das chamadas baianas é tema do artigo do professor Jaime Sodré. Foto: Lúcio Távora | AG. A TARDE

 

Jaime Sodré

Chegou o dia. Dona Tidinha pronta, nos seus 67 anos, obediente a iconografia musical de Caymmi, segue a orientação do mestre quanto ao “trajo”: torço de seda, brincos de ouro, corrente de ouro, pano-da-costa, bata rendada, pulseira de ouro, saia engomada, sandália enfeitada, tem. Mas, a bem da verdade, onde consta a palavra “ouro”, leia-se dourado, sinais dos tempos. Tinha graça como ninguém. Dona Tidinha não tinha um rosário de ouro, nem uma bolota assim ou balangandãs. Mas, com as graças de Oxalá, vai ao Bonfim. Jarro enfeitado, branquinho, palma de Santa Rita e Angélica, caule imerso no “amassi”.

Lá vai Tidinha. Segue pela Rua Direita de Santo Antônio, passa pela reforma da Igreja do Boqueirão, benze-se. Vislumbra a Igreja dos Quinze Mistérios, reduto Malê, benze-se. Segue o Pelourinho, dá de frente com a Catedral da Sé, benze-se ao padroeiro de Salvador, São Francisco Xavier. Desce o Elevador, repousa nas escadarias da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Bahia, e aguarda a saída rumo ao padroeiro popular da Bahia, Nosso Senhor Oxalá do Bonfim. Era assim que ela entendia e exercia a sua religiosidade. E toca a esperar… cochila.

No íntimo, agradece ao Capitão-de-mar-e-guerra Theodósio Rodrigues de Faria, a feliz ideia de render graças ao Senhor do Bonfim. A imagem de Nosso Senhor e de Nossa Senhora da Guia, vindas de Portugal, chegaram à Bahia por iniciativa deste capitão, fruto de uma promessa quando enfrentara intempéries marinhas. Em 16 de abril de 1745, a réplica da imagem instalada em Setúbal, terra natal de Theodósio, chega à Bahia.

Com a permissão do bispo D. José Botelho de Matos, é abrigada na Igreja de Nossa Senhora da Penha de França. Após o término da construção da igreja, iniciada em 24 de junho de 1754 e concluída em 1772, as imagens são trazidas para a Sagrada Colina.

Para alguns a lavagem teria sido iniciada em 1773, quando, a mando da irmandade dos leigos, os escravos efetivaram a lavagem do templo para a Festa do Bonfim, no segundo domingo após o Dia de Reis. Informa-nos o brilhante professor Sebastião Heber, que essas lavagens têm as suas raízes na metrópole portuguesa, mas não eram muito do agrado dos senhores bispos. Em 1534 o bispo de Évora teria interrompido este ato, alegando desrespeito aos valores católicos.

Na versão oral, a lavagem vinculada a Oxalá, nos moldes que conhecemos, teria sido uma iniciativa do Babalorixá Bernardino, com filhas de santo e água de cheiro, pagando uma promessa.  Em 1863 fechou-se o adro, colocando-se um gradil, doado pelo ex-juiz J.P. Rodrigues da Costa, contra abusos. Para comemorar o primeiro centenário da Independência da Bahia, em 1923, fora incluída na programação, a venerada Igreja do Senhor Jesus do Bonfim. Para a ocasião cria-se o Hino ao Senhor do Bonfim. A relação da Igreja e música surge em 1839, com as composições do violonista e compositor baiano Damião Barbosa de Araújo para as missas cantadas em latim.

Dona Tidinha acorda do cochilo, começa a romaria. Aos gritos de “Viva o Senhor do Bonfim” a caminhada segue com fé, e todos cantam o “Gloria a ti”, popularizado em uma gravação de Caetano Veloso. Na verdade, o Hino Oficial é de autoria musical de Edgas Muniz de Aragão Pethion de Gueiroz, com letra de Remigio Domenech: “Ao teu lado, sempre unidos, somos o seu povo, Nosso Senhor, Nosso Senhor do Bonfim, salva, protege, alumia pelo sinal desta cruz, o coração da Bahia, que a teus pés, o amor conduz, volve os teus olhos divinos, aos nossos males, oh sim, ouve o clamor desse hino, Nosso Senhor do Bonfim”.

O “Gloria a ti”, como o povo o intitula, foi composto em 1923 para as comemorações do centenário, por João Antônio Wanderlei e Artur de Sales. Artur teve a sua letra escolhida por Wanderlei, na ocasião regente da Banda da Polícia Militar. Dona Tidinha entoa a canção, promove uma alteração na letra, e ao invés de cantar “mansão da Misericórdia” canta “Mãe Santa Misericórdia”, mas tudo vale.

Às 18 horas do mesmo dia, os pés estão na água quente, a roupa, os adereços e fios de contas na cama, e diante do cansaço e esforço comenta o seu filho: “Não sei pra que isso, mamãe, se cansar à toa”. Responde D. Tidinha, retirando o torço: “Não é por mim filho, é pela humanidade”.

Jaime Sodré é professor, historiador e religioso do Candomblé

Confiram as vencedoras da Promoção Cultural

 

Contracapa do livro retrata autores do texto e da ilustração. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Contracapa do livro retrata autores do texto e da ilustração. Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

Iele Ferreira Portugal (A Origem do Homem na Versão Africana); Marcleia Santiago do Amor Divino ( Dona Clara) e Maria Auxiliadora Andrade Pereira (Uma História de Caboclo) são as vencedoras da I Promoção Cultural do Mundo Afro.

Cada uma delas vai receber um exemplar do livro Uma Histórinha Africana, de autoria do professor Jaime Sodré com ilustrações de João Victor Dourado.

O livro faz parte de um projeto voltado para o suporte à aplicação da Lei 10.639/03, alterada pela 11.645/08, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira, apoiado pela  Fundação Cultural Palmares.   As vencedoras vão receber os livros em suas residências.

Ficou ainda um exemplar, pois o material enviado não estava no formato da promoção.  A ideia era elaborar relatos tentando ficar o mais próximo possível da forma como eles foram absorvidos e não cópias de outros autores. Se chegar mais alguma história com o formato pedido, ganha o exemplar remanescente.

No mais, obrigada pela participação e vou publicar aqui no blog as histórias vencedoras a partir da próxima semana. Outra coisa: essa é a primeira das promoções. Sempre que tiver oportunidade farei outras.

Ilê Aiyê recepciona Gilberto Gil

Gilberto Gil é o convidado do Ilê Aiyê. Foto: Claudionor Junior| AG. A TARDE

Gilberto Gil é o convidado do Ilê Aiyê. Foto: Claudionor Junior| AG. A TARDE

O ensaio do Ilê Aiyê será mais do que especial amanhã. O convidado é o cantor e compositor Gilberto Gil.

Além disso,a nova Deusa do Ébano, Gisele da Silva Santos, fará a sua primeira apresentação oficial.  O show começa às 22 horas. Os ingressos custam R$ 30 (camarote) e  R$ 15 (pista), Informações 2103-3400.

Promoção do Mundo Afro vai até sexta

As quatro melhores histórias vão ganhar livro assinado pelo professor Jaime Sodré. Foto: Rejane Carneiro| Ag. A TARDE

As quatro melhores histórias vão ganhar livro assinado pelo professor Jaime Sodré. Foto: Rejane Carneiro| Ag. A TARDE

A promoção cultural do Mundo Afro prossegue até a próxima sexta-feira. Algumas histórias já chegaram e continuo aguardando as demais. 

Os autores das quatro melhores vão receber, cada um, um exemplar do livro Uma Historinha Africana, dirigido ao público infanto-juvenil e escrito pelo professor Jaime Sodré, com ilustrações de João Victor Dourado.

Para saber como participar da promoção acessem o post anterior clicando aqui.

Maroketu reabre hoje

Mãe Cecília Soares assume hoje o Maroketu. Foto: Wilson Militão |Divulgação

Mãe Cecília Soares assume hoje o Maroketu. Foto: Wilson Militão |Divulgação

Hoje é dia da festa de reabertura de um tradicional terreiro de Salvador: o Ilê Axé Maroketu.  A cerimônia começa às 16 horas. A Casa será regida pela ialorixá Cecília Soares, filha de Mãe Pastora e neta da fundadora do terreiro, Cecília do Bonocô. 

O Maroketu foi fundado em 1943, na Ladeira do Bonocô, hoje denominada Rua Antônio Viana, em Cosme de Farias.  Cecília do Bonocô era consagrada a Azoani e filha religiosa de Damiana Oxalafalaqué que por sua vez foi iniciada pela legendária Iya Magebassan.

Segundo o histórico do tereiro os fundamentos do culto a Azoani, uma divindade com características próximas a Obaulaê da nação Ketu, foram preprados pelo célebre Martiniano do Bonfim.

Com referência à nação ketu, o terreiro tem raízes no culto jeje por conta de Azoni, mas também tem forte relação com o orixá Xangô. Cecília Soares vai suceder Mãe Pastora de Iemanjá Ogunté.

Além da sua tradicional herança religiosa, Mãe Cecília é também conhecida por sua carreira acadêmica. Professora da Uefs, é autora de estudos na área de história e antropologia, como o livro Mulher Negra na Bahia do Século XIX.

Artigo sobre o Haiti

Publico abaixo o artigo assinado pelo professor Ubiratan Castro, doutor em História e presidente da Fundação Pedro Calmon, sobre a tragédia que se abateu sobre o Haiti.

O artigo foi originalmente publicado na edição de hoje de A TARDE, que aliás está fazendo uma excelente cobertura sobre o terremoto que destruiu o País.

Como tudo o que o professor Ubiratan escreve é uma belíssima aula, não só de História, mas também uma análise política de quem conhece de perto o Haiti.

Balaio de Ideias:Após o tremor, ai de ti, pobre e devastado país chamado Haiti

 

 

 

Professor Ubiratan Castro analisa situação do Haiti. Foto: Marco Aurélio Martins | AG. A TARDE

Professor Ubiratan Castro analisa situação do Haiti. Foto: Marco Aurélio Martins | AG. A TARDE

 

 

Ubiratan Castro

O mundo ficou estarrecido com o terremoto que destruiu Porto Príncipe. Os terremotos não têm qualquer relação com os regimes políticos, com características socioculturais ou mesmo com os credos religiosos praticados pelos povos.

Os movimentos das placas tectônicas provocam terremotos na Itália, nos EUA e no Haiti. No entanto, no Haiti, o país mais pobre das Américas, os efeitos são devastadores.

Conheci o Haiti por sua história de luta contra a escravidão de africanos e seus descendentes. Com o nome de São Domingos foi a mais importante colônia francesa, maior produtora de açúcar das Américas no século XVIII.

Em uma superfície comparável ao Recôncavo baiano, os colonizadores apinharam mais de 500 mil escravos, em sua maioria africanos.

A violência da escravidão desencadeou uma resistência escrava, que antecedeu a grande revolução negra, a partir de 1789, com a eclosão da Revolução Francesa, até 1804, data da Independência nacional haitiana.

Foi a única revolução escrava vitoriosa nas Américas. A escravidão foi erradicada, os senhores foram expulsos ou mortos, as terras e engenhos distribuídos com os trabalhadores e proclamou-se a república dos africanos e seus descendentes.

O nacionalismo negro foi consagrado na constituição do país. Ainda hoje, na linguagem coloquial, o tratamento de neg (negro) é sinônimo de cidadão.

A república negra do Haiti foi considerada o grande perigo para a escravidão imperante nas Américas. Estabeleceu-se um rigoroso cordão sanitário em torno daquela meia-ilha, de modo a impedir a propagação da revolução escrava em outros países.

Longe de Deus e perto dos EUA, como dizem os mexicanos, o Haiti foi vítima de várias invasões militares americanas. A mais longa durou de 1915 a 1934, quando os EUA sequestraram as rendas da alfândega haitiana a título de pagamento da dívida externa.

A mais recente intervenção foi o apoio ao deposto presidente Aristides, que seguiu ao pé da letra as lições americanas sobre o Estado mínimo. Ele praticamente destruiu o Estado haitiano, suprimindo serviços de saúde, obras públicas e, sobretudo, extinguindo o exército nacional. Oficiais e praças foram mandados para casa, sem salários e com as armas na mão. O resultado foi a formação de bandos paramilitares.

Estive no Haiti em quatro missões oficiais. Algumas evidências foram muito fortes para mim. A primeira foi a miséria mais generalizada e mais aguda, sem referência comparativa com qualquer favela brasileira ou musseque africano.

A segunda foi a insuficiência grave de serviços públicos básicos. A terceira foi a atuação do Exército Brasileiro no comando da força de paz da ONU, um exemplo de respeito aos direitos humanos.

Constatei também o valor do povo haitiano. Apesar da pobreza, vi um povo trabalhador, orgulhoso de sua negritude e de sua história revolucionária, a sua afeição pelo Brasil e a esperança com a pacificação comandada pela ONU.
 
Ubiratan Castro é doutor em história e presidente da Fundação Pedro Calmon

Cresce movimento de repúdio a cônsul do Haiti

A tragédia no Haiti, segundo o cônsul, era por conta dos haitianos mexerem com "macumba". Foto: AP Photo |Gerald Herbert

A tragédia no Haiti, segundo o cônsul, era por conta dos haitianos mexerem com "macumba". Foto: AP Photo |Gerald Herbert

As declarações do cônsul-geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, continuam repercutindo negativamente. Organizações do movimento negro político e religioso já estão se articulando para pedir a sua saída do país e do cargo que ocupa.

Em Salvador,amanhã, quarta-feira, às 19 horas, haverá uma reunião sobre o tema na sede do Instituto Steve Biko, situado no Largo do Carmo, Pelourinho.

Dentre as declarações desastrosas dadas pelo cônsul, sem saber que uma equipe de reportagem do SBT estava gravando, está a de que a culpa pela tragédia que destruiu o Haiti era por conta da presença do Vodu, um culto de matriz africana extremamente forte no País. Clique aqui para conferir o post com o vídeo em que aparece a fala de Antoine. 

Segundo matéria do Instituto Mídia Étnica, o vídeo, disponível no Youtube, foi traduzido para o inglês e o espanhol e já começa a mobilizar repúdio também internacional.  

 

Salvador celebra luta contra a intolerância religiosa

Mãe Jaciara à frente da caminhada realizada no ano passado. Foto: Fernando Vivas |AG. A TARDE

Mãe Jaciara à frente da caminhada realizada no ano passado. Foto: Fernando Vivas |AG. A TARDE

Salvador vai ter na próxima quinta-feira atividades em comemoração ao Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Às 9 horas, acontece a 3ª Caminhada Contra a Intolerância Religiosa e Pela Paz, em Itapuã. O ato está sendo organizado pelo Terreiro Abassá de Ogum.

A saída será do monumento conhecido como Sereia de Itapuã, às 9 horas. A caminhada seguirá em direção ao Abaeté.

Às 14 horas,  religiosos de matriz africana, indígena, espíritas, budistas, islâmicos, seicho-no-iê, batistas, representantes da ortodoxa Bielo-Russia cristã, dentre outros segmentos, participam de um ato inter-religioso no Espaço Cultural da Barroquinha. O evento está sendo promovido pela União de Negros pela Igualdade (Unegro), com os apoios  do gabinete da vereadora Olívia Santana e das secretarias estaduais de  Direitos Humanos (SJCDH) e de Promoção da Igualdade (Sepromi), além das  fundações  Pedro Calmon e Gregório de Mattos.

A data faz uma homenagem à memória da ialorixá Mãe Gilda, que comandava o Abassá de Ogum. Ela teve a sua saúde agravada a partir de agressões promovidas por evangélicos, com invasões ao seu terreiro.  Por fim, uma fotografia sua foi publicada numa matéria do jornal Folha Universal, pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), onde sacerdotes das religões de matriz africana eram tachados de “charlatães”.

No dia 21 de janeiro de 2000, Mãe Gilda morreu por conta de um infarto. Os familiares da sacerdotisa, liderados pela atual ialorixá do Abassá de Ogum, Jaciara Ribeiro, após uma longa batalha judicial, conseguiram reparação por danos morais. A vitória é considerada um marco da luta contra a intolerância religiosa no Brasil.

Em 2004,  por meio de um projeto de Lei da vereadora Olívia Santana foi instituído o Dia Municipal de Combate à Intolerância Religiosa. A Lei Municipal  serviu de inspiração para que o deputado Daniel Almeida apresentasse um PL na Câmara Federal que instituiu o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.

 

Gisele Santos é a nova Deusa do Ébano

Gisele posando como representação de Oxum em uma série feita por A TARDE. Foto: Xando Pereira | AG. A TARDE

Gisele posando como representação de Oxum em uma série feita por A TARDE. Foto: Xando Pereira | AG. A TARDE

O Ilê Aiyê já tem a sua Deusa do Ébano 2010. Trata-se de Gisele da Silva Santos, 22 anos.

Gisele é filha-de-santo do terreiro Ilê Axé Yá Delmin, localizado em Dias D´Ávila, e consagrada ao orixá Obá.

Estudante de Teatro da Ufba, esta foi a terceira vez que ela concorreu ao título. “Já estava na hora”, comemora Gisele. A paixão pelo Ilê é de família, segundo a nova rainha do bloco. “Eu aprendi com meu pai sobre a importância do Ilê e o seu exemplo de resistência em defesa da cultura negra “, acrescenta.

Gisele afirma que o coração acelera quando se recorda do momento em que foi anunciada como a nova Deusa do Ébano. “A emoção é grande por conta de toda esta história que o Ilê Aiyê carrega com ele”, diz.

A primeira vez em que disputou o título foi em 2007. No mesmo ano, ela posou para uma imagem da série de reportagens de A TARDE intitulada O Mar de Iemanjá.

A ideia da matéria foi mostrar  os orixás Iemanjá e Oxum mais próximas da representação africana, diferente do que aparece em quadros famosos, onde elas são retratadas com traços europeus.

Para a produção da reportagem, A TARDE teve o apoio da ong Omi Dudu que selecionou as duas meninas. Gisele posou de Oxum e Paula Bonfim de Iemanjá. Em 2008, ela voltou a disputar o posto, mas ficou em segundo lugar. 

Todos os detalhes da Noite da Beleza Negra, festa em que o Ilê escolhe sua rainha está na matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+, assinada pela repórter Tatiana Mendonça.

Tributo a Billie Holiday

Curtam aí abaixo o artigo emocionado e emocionante escrito pelo jornalista e antropólogo, Marlon Marcos, sobre a diva Billie Holiday.

Como nunca é demais ouvir Billie, acrescentei um vídeo com uma de suas performances logo abaixo do artigo. Aproveitem.

Balaio de Ideias: Lady Day

Billie Holiday e sua voz incofundível é tema de artigo. Foto: ARQUIVO|AE

Billie Holiday e sua voz incofundível é tema de artigo. Foto: ARQUIVO|AE

Marlon Marcos

Alguma coisa na linha antiga do tempo, mas que é sem tempo e é sonoramente tão próxima do silêncio. Uma voz. A voz. Vinda de uma fresta tecnológica em fiascos de imagens de mulher negra. A mais linda das mulheres.

Alguma coisa que piora o calor noturno num país como o Brasil e que nos Estados Unidos faz do frio enterro de corpos vivos em transe, quando ela canta. Algo sem sentido impedindo o destino do simplesmente viver. Não, ali é dor, intensidade; máscaras sem deixar de ser coragem e esgota na gente a vontade de ter. Tendo-se. Ter sendo o tempo perdido ao alcance das mãos. O desejo quase vivido, meio ferido sem chances para uma total cicatrização.

Excesso. Força da beleza. Mito feminino inaugurando outro século. Noção do eterno numa voz chorosa, lacrimosa, fina e instigante. Tantos pensamentos à luz da projeção – conquista tecnológica: ela viva linda sentada senhora rainha musa mulher doente morrendo. A vida. Ela talvez sem perfume. Ela com flores no cabelo. Ela jogando a sua dor infinda, inventada e sentida, sobre todos nós.

Alguma coisa no inexplicável das madrugadas que tira o nosso sono e verte o nosso sangue e a gente chora… Alguma coisa nisso chamado canção numa emissão feminina e a memória sem resolução bate sem clemência no corpo que arde, transpira e invade, em retrocesso, lugares deixados para trás.

Alguma coisa que é desperdício universal – o gênio de uma mulher murmurando o que podia ser amor.

Belo canto, hoje sem ventilação, fazendo sofrer.

Poesia dilacerante que rouba o travesseiro, a cama, o quarto, a sala, a casa, a respiração e nos coloca vulneráveis no vazio da nossa existência – temendo que, depois daqui, tudo ainda exista sem abrigo.

E não se pode parar de ouvi-la.

Marlon Marcos é jornalista e antropólogo

 

Cônsul pede desculpas

Declarações do cônsul sobre a tragédia no Haiti soaram preconceituosas. Foto: AP Photo|The Canadian Press|Adrian Wyld

Declarações do cônsul sobre a tragédia no Haiti soaram preconceituosas. Foto: AP Photo|The Canadian Press|Adrian Wyld

O cônsul-geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, pediu desculpas e atribuiu suas declarações de caráter preconceituoso não só às religões de matriz africana, mas também aos povos africanos,  ao “seu português ruim” em momentos de tensão. O cônsul está no Brasil desde 1975.

Registrem-se as explicações do cônsul, mas vai ser difícil torná-las convicentes, pois além do áudio tem as imagens. Clique aqui para ver post com o vídeo das declarações de Antoine.

Promoção Cultural do Mundo Afro

Blog sorteia quatro exemplares de Uma Historinha Africana. Foto: Fernando Amorim | AG. A TARDE

Blog sorteia quatro exemplares de Uma Historinha Africana. Foto: Fernando Amorim | AG. A TARDE

O Mundo Afro está lançando sua primeira promoção cultural. Vou sortear aqui quatro exemplares do livro Uma Histórinha Africana, de autoria do professor Jaime Sodré, com ilustrações de João Victor Dourado. O professor Jaime, gentilmente, doou os exemplares para este fim.

A edição do livro, dirigido ao público infanto-juvenil, foi vencedor de um edital da Fundação Palmares e faz parte de um projeto de apoio didático para aplicação da Lei 10.639/03, que estabelece o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira. Atualmente, a Lei tem o número 11.645/08, por conta da modificação para também incluir o ensino de História e Cultura Indígena.

O projeto contemplou não só a distribuição do livro em escolas, mas também um encontro com a presença da ebomi Cidália Soledade, uma exímia contadora das histórias de trdição africana. Os encontros aconteceram em dezembro nas escolas Mãe Hilda, localizada na Liberdade, São Gonçalo e Mundo dos Sonhos, situadas na Federação.

O livro conta uma história envolvendo Doúm, Alabá e Elegbara e é um ensinamento sobre as muitas verdades que um mesmo fato pode oferecer.

Vamos fazer o seguinte: os quatro melhores relatos sobre histórias de tradição africana levam os exemplares. Podem ser contos relativos a inquices, orixás, voduns e caboclos, mas não vale, por exemplo, escrever igualzinho aos relatos de Pierre Verger ou de Reginaldo Prandi, por exemplo.

Contem como vocês ouviram as histórias de seus avós, pais e tios. Quem sabe não descobrimos outros griots (contadores de histórias) por aí?

História pronta é só enviar via o sistema de comentários do blog, com nome completo, endereço e telefone. Claro que não vou publicar estas duas últimas informações. É só para enviar o livro em caso de vitória.

Leitores de outros estados e países também podem participar. Não se preocupem que tem como fazer chegar o exemplar. O prazo para envio é até o próximo dia 22 (sexta-feira de hoje a oito).  

As melhores histórias além de levar o livro também serão publicadas no blog para a gente socializar as informações. Vamos lá. Estou ansiosa pela participação de vocês.  

O gesto simblólico do padre Edson

 

Padre Edson é referência de respeito à liberdade de crença. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE

Padre Edson é referência de respeito à liberdade de crença. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE

Pela segunda vez, o padre Edson Menezes, reitor da Basílica de Nosso Senhor do Bonfim,  fez um gesto simbólico de recepção ao cortejo da Lavagem do Bonfim . Como no ano passado as portas- protegidas por um gradil- e as janelas do templo foram abertas.

A meu ver a questão ultrapassa a ideia de abrir a igreja para a visitação após a chegada do cortejo, ação proibida pela Arquidiocese de São Salvador  em 1890. A ação do padre Edson pode ser entendida mais como exemplo de alguém que entende o princípio de respeitar quem pensa diferente.

Isso porque ao abrir a igreja e acolher uma manifestação católica no nome, mas com um forte parentesco com a devoção a Oxalá, o orixá do candomblé que veste branco e é distribuidor de dons, como a chuva, padre Edson dá um tapa de luva nos que acham que religião é terreno de disputa.

O sacerdote católico mostra que é possível conviver no mesmo espaço entendimentos religiosos diferentes, sem proselitismos ou queda de braço para arrastar fiéis. O padre deixa também margem para a interpretação de que a Igreja Católica está disposta a não cometer, em determinadas situações, os mesmos erros do passado.

O simples ato de abrir uma janela e dar as boas vindas ao cortejo é simbologia do que vem ocorrendo na prática entre as religiões de matrizes africanas e o catolicismo. Os dois segmentos estão praticando o diálogo, que é muito diferente da tentativa de um convencer o outro da sua Verdade ou fazer uma mistura dos princípios da fé de cada um.

Aliás a relação entre estas duas vertentes ficou muito melhor a partir do advento da  Pastoral Afro, um organismo católico criado em 1988. Há também já em andamento a construção de uma comissão voltada para este fim na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Vale ressaltar que  há conquistas de respeito à diferença também envolvendo outros segmentos como  espíritas, instituições evangélicas, judeus dentre outros. Não é à toa que acontece na saída do cortejo, na Igreja da Conceição da Praia, um culto reunindo os credos de origem cristã e não cristã.

Talvez um bom passo para o próximo ano é fazer este culto inter-religioso chegar até as portas da igreja do Bonfim, um templo cuja história é voltada para o acolhimento de quem o procura. Além disso, tanto o Senhor do Bonfim como Oxalá são símbolos  de paz e entendimento, princípios que as verdadeiras religiões, espera-se, cultivem sempre.

Sandy critica atenção ao Haiti

Sandy criou polêmica com declarações sobre a tragédia no Haiti. Foto: Zé Paulo Cardeal | Divulgação

Sandy criou polêmica com declarações sobre a tragédia no Haiti. Foto: Zé Paulo Cardeal | Divulgação

Do lado brasileiro, a polêmica ficou para as declarações que a cantora Sandy publicou em seu Twitter. A moça questionou o que considera uma atenção constante à catástrofe no Haiti, pois, segundo o seu raciocinio,  há pessoas sofrendo no Brasil precisando de ajuda.

“Tudo bem que a quantidade de vítimas foi bem maior no Haiti do que a de vítimas de catástrofes aqui no Brasil; mas tenho ouvido muito mais notícias de gente se mobilizando para ajudar o Haiti do que eu vi acontecer por aqui.  Será que isso é justificável?”, escreveu.

Depois completou: “Não tô querendo desmerecer a tragédia que ocorreu por lá, mas…”.

Por conta das mensagens de protesto que recebeu, a cantora partiu para o ataque:

“Aos ignorantes de plantão: eu não disse que não deveria ajudar, muito pelo contrário; só acho que o Brasil merece mais atenção do que tem tido”. A partir daí colocou links para ajuda ao Haiti e desabrigados do Rio Grande do Sul.

Acho que a cantora deve aprender que liberdade de expressão é caminho de duas vias, ou como diz aquele ditado: quem diz o que quer, ouve o que não quer… 

Cônsul do Haiti demonstra preconceito religioso

Em meio à tragédia que se abateu sobre o Haiti, ainda tem gente que consegue achar tempo para destilar intolerância contra as tradições religiosas de matriz africana.

Depois do pastor norte-americano Pat Robertson ter dito que a catástrofe é efeito de um “pacto com o diabo” feito pelos haitianos para vencerem os franceses lá no século XVIII, agora é o próprio cônsul do país no Brasil, George Samuel Antoine, que não só considera a tragédia fruto da opção religiosa dos haitianos como também estende  este seu  raciocínio, no mínimo preconceituoso e irresponsável,  a todos os africanos.

Sem saber que estava sendo gravado pelo SBT Antoine fez as seguintes declarações:

-Acho que de tanto mexer com macumba… não sei o que é aquilo.

-O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano tá f….

E ainda teve essa:

-Desgraça de lá está sendo uma boa pra  gente aqui,  fica conhecido.

Imaginem que é esta criatura que tem a missão de cuidar dos interesses do Haiti no Brasil. Isto tudo é por conta da forte resistência do vodu, que nada tem a ver com aquela imagem divulgada pelo cinema americano, na sociedade haitiana. 

Se vocês acharam inacreditável as palavras do cônsul  confiram no vídeo abaixo. É chocante. Agradeço ao leitor do blog que assinou como Primo que mandou o link com o vídeo.

Dados sobre mortos ainda é incerto

Dados precisos sobre a tragédia no Haiti ainda não foram reunidos. Foto:  EFE

Dados precisos sobre a tragédia no Haiti ainda não foram reunidos. Foto: EFE

Mais cedo coloquei um post com a afirmação de que o número de mortes no Haiti por conta do terremoto chega a 100 mil pessoas.

Agora há pouco a Cruz Vermelha divulgou comunicado dizendo que os mortos chegam a 45 mil ou 50 mil pessoas, além de três milhões de feridos ou desabrigados.

A disparidade nas informações oficiais sobre os dados da tragédia, inclusive, as fornecidas pelo próprio governo, é mais um efeito do tamanho da catástrofe que não permite ainda sequer precisar o número de vítimas.   

 

Quem tem fé vai a pé

Participantes disputam água de cheiro levada pelas baianas. Foto: Thiago Teixeira | Ag. ATARDE

Participantes disputam água de cheiro levada pelas baianas. Foto: Thiago Teixeira | Ag. ATARDE

Milhares de baianos e turistas já estão no adro da Igreja do Bonfim para a lavagem das escadarias. A Lavagem do Bonfim é uma das festas mais populares do calendário do verão de Salvador e mistura fé e muvuca, bem do jeito baiano de ser.

É uma homenagem ao católico Senhor do Bonfim, ou Senhor da Boa Morte, uma devoção iniciada pelo capitão Theodósio Rodrigues de Farias, membro da Armada Portuguesa. Após sobreviver a um naufrágio no século XVIII, o militar resolveu construir uma igreja em agradecimento.

Logo, o templo virou endereço de romaria. O início da lavagem é ainda controversa, mas parece ter começado durante os preparativos para a grande festa em homenagem ao Senhor do Bonfim que acontece no domingo.

Mas o que a gente realmente percebe é um forte simbolismo com as homenagens a Oxalá, divindade do candomblé. O rito realizado nos terreiros  é chamado de Águas de Oxalá, daí a presença das baianas no cortejo da lavagem levando na cabeça as quartinhas cheias de água de cheiro, preparadas com ervas especiais.

Aliás, para os devotos, a obrigação de andar os 7,5 quilômetros da Conceição até o adro da Igreja do Bonfim só está completa quando conseguem convencer uma das baianas a derramar sobre as suas cabeças um pouco de água de cheiro.

E, acreditem, tem até uma história envolvendo esta devoção com a Guerra da Independência da Bahia, ocorrida de novembro de 1822 a julho de 1823.

Este episódio é sempre contado pelo professor e historiador Cid Teixeira: durante o cerco das tropas brasileiras e a crescente tensão que se seguiu, pois os portugueses estavam sitiados em Salvador, o general português, Madeira de Mello, resolveu tirar a imagem da Colina Sagrada e levá-la para um convento no Terreiro de Jesus.

Era uma forma de tentar irritar as tropas brasileiras. A estratégia não deu o resultado que o general português queria e, quando o chamado Exército Libertador entrou na cidade no dia 2 de julho de 1823, uma das primeira providências foi levar a imagem de volta para o Bonfim em meio a uma grande festa.

Daí fica explicado o trecho do hino, que não é o oficial, mas aquele que ganhou a aprovação do povo, composto para comemorar o centenário da Independência:

“Glória a Ti, neste Dia de Glória/ Glória a Ti Redentor que há cem anos/Nossos pais conduziste à vitória, pelos mares e campos baianos”.

Para quem quiser saber mais sobre o lado afro religioso da lavagem vale conferir o livro Águas do Rei, do doutor em antropologia e professor da Ufba, Ordep Serra.